As Fintechs e a disrupção no mercado financeiro

As Fintechs e a disrupção no mercado financeiro

Transferindo dinheiro para outro país sem usar um banco

Taavet é natural da Estônia e, após alguns anos, foi transferido para Londres. Ainda recebia seu salário na Estônia, porém suas despesas já eram quase todas em Londres, então precisava, todo mês, transferir seu dinheiro para um banco no Reino Unido e, para isso, pagava sempre uma taxa para o banco e para a conversão era usada uma taxa sempre diferente da que ele via nos sites especializados.

Em 2010, Taavet conheceu um outro estoniano, chamado Kristo Käärmann, que trabalhava numa empresa de consultoria e também havia sido transferido para Londres. Kristo tinha um financiamento na Estônia e, por isso, todos os meses, fazia o oposto, mandava dinheiro do Reino Unido para o seu banco na Estônia. Não demorou muito para eles terem uma ideia: ao invés dos dois ficarem pagando as altas taxas para transferir dinheiro de uma país para o outro, Taavet transferiria dinheiro da conta dele na Estônia para a conta do banco de Kristo no mesmo país e Kristo transferiria dinheiro para Taavet para sua conta no banco de Londres. Fariam assim duas transferências locais, pagando muito menos em taxas. E para serem justos com a taxa de conversão entre as moedas, resolveram usar a média entre compra e venda, o que era fácil de checar consultando o site da Reuters.

Depois de alguns meses fazendo isso, eles começaram a ouvir de outros estonianos que esta solução também resolvia um problema que eles enfrentavam. Eles começaram a pensar então que este poderia ser um problema que atingia muito mais gente do que eles imaginavam. E que isto poderia acontecer diariamente em muitos países ao redor do mundo.

Assim nasceu a Transferwise, fundada em 2011 por Taavet e Kristo, e que hoje transfere recursos entre mais de 50 países (inclusive o Brasil), usando esta mesma lógica. Imagine que o Paulo esteja no Brasil e queira transferir para o seu filho, Jorge, que está nos EUA, o equivalente a 300 dólares. Suponha agora que a Maria, que mora nos EUA, esteja querendo transferir 300 dólares para a sua mãe Helena, que mora no Brasil. A Transferwise vai pegar os reais do Paulo e depositar na conta da Helena, fazendo uma transferência entre bancos aqui no Brasil, tudo em reais. E vai pegar os dólares da Maria, que estão nos EUA e transferir para a conta do Jorge, fazendo uma transferência em dólares, dentro dos EUA. Assim, serão feitas duas transferências locais, uma no Brasil e outra nos EUA, as duas muito mais baratas do que uma transferência internacional. E a Transferwise vai cobrar de ambos uma taxa, que chega a ser quase um décimo do que se paga normalmente para os bancos. Assim, ela encontra pessoas que estejam querendo fazer as mesmas operações, só que em direções opostas, e faz negócio entre elas. Daí a associação com o que o Uber faz.

Recentemente, a Transferwise recebeu mais um aporte de investidores, o que fez seu valor de mercado ultrapassar U$1 bilhão, colocando-a assim no rol das chamadas unicorns, as startups que ultrapassam U$1 bilhão de valor de mercado. Isso mostra o quanto o mercado está apostando nesta solução, que oferece ao usuário uma experiência muito mais simples, intuitiva e barata que os serviços dos bancos tradicionais.

Marcos Figueira é sócio do Wyse Group, Brasil (wyse.com.br) e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) nas áreas de Marketing, Marketing Digital, E-Commerce, Negócios Online, Planejamento Estratégico, etc.

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